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NO CALVÁRIO DE CRISTO O SOFRIMENTO DE TODA A HUMANIDADE

Na sexta-feira santa celebramos a Paixão e Morte de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Neste dia as nossas igrejas costumam ficar lotadas como nunca. Todos voltam o olhar para o Cristo crucificado. Há muita comoção nas procissões com a imagem do Cristo carregando a cruz. Muita gente até chora de dor sentindo na sua carne a dor das chibatadas mil que Cristo sofreu e a dor dos espinhos da coroa que foi colocada em sua cabeça. É muito difícil não sentir um profundo sofrimento na alma ao ouvir a narração da Paixão, nos falando dos pregos sendo encravados nas mãos e nos pés de Jesus, da lança perfurando o seu peito e outras torturas mais a que o Cristo foi submetido humilhantemente.

Esta é uma reação esperada de um católico praticante ou não, pois fomos formados ao longo dos séculos para nos comover e ter pena do sofrimento de Jesus. Está compaixão é tida como normal e para muitos só acontece naquele dia.

A Celebração da Paixão e Morte de Cristo, traz para nós, cristãos de hoje, um grande desafio: olhar para o calvário de Jesus e nele enxergar o sofrimento de toda humanidade, pois para muita gente é muito fácil olhar para o Cristo na Cruz e sentir compaixão e se faz isto com bastante facilidade. Difícil é contemplar todo o sofrimento de Cristo e nele ver o sofrimento de toda pessoa.

O sofrimento do outro, o seu calvário está ao nosso lado. Às vezes na nossa própria casa, na casa do nosso vizinho, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, estado e país. Mas mesmo assim não conseguimos ver e enxergar. Temos uma tendência também a ver somente os nossos sofrimentos e esquecer os dos outros.

Quanta gente neste momento sofre por causa da fome, por causa do desemprego, da falta de moradia. Quanta gente neste momento vive um calvário porque sofre discriminação por causa da sua orientação sexual, por causa da sua cor, do seu grupo social. Quanta gente neste momento sofre porque não tem acesso a um sistema de saúde que lhe garanta bem estar. Quantas pessoas sofrem porque não tem acesso à cultura e ao lazer. Quanta gente sofre ao nosso lado porque nunca recebe um abraço, um beijo, um aperto de mão, um carinho, uma palavra de ajuda e de incentivo.

Hoje é o dia de ver todos os sinais de morte existentes no nosso meio. Foi por causa destes sinais de morte que o Cristo morreu na cruz. Foram estes sinais de morte: violência, corrupção, falta de amor, ódio, indiferença, discriminação, racismo, etc. que colocaram o Cristo na Cruz. Há muito sofrimento e morte ao nosso redor. Precisamos ver em cada sofrimento, perto ou longe de nós a agonia de Jesus no Horto das Oliveiras e a sua morte. Quando a gente assim celebrar a Semana Santa, estaremos dando um grande passo para realmente celebrar uma Páscoa verdadeira.

Hoje é um dia de lembranças. Neste dia lembremos de todos os doentes. Daqueles que carregam a pesada cruz da sua enfermidade. Lembremos daqueles que sofrem porque não podem falar, não podem escutar, não podem ver, não podem andar. Lembremos daqueles que gritam, mas não são escutados. Lembremos dos que sofrem pela falta da liberdade de ir e vir e pela falta de liberdade de expressão das suas idéias e do seu pensamento. Lembremos dos idosos abandonados, muitas vezes pelos seus próprios filhos e familiares. Lembremos daqueles que padecem nas imensas filas dos hospitais. Lembremos daqueles que não têm acesso a um serviço público de qualidade. Lembremos dos jovens que sofrem por falta de oportunidades para o seu desenvolvimento integral como pessoa. Lembremos das crianças, condenadas a um futuro incerto. Lembremos dos pais e mães que sofrem com o sofrimento dos seus filhos.

Lembremos também da natureza que sofre por causa da ganância e do egoísmo da humanidade: lembremos dos rios poluídos pelos nossos esgotos, da mata destruída pelas queimadas e do ar poluído de nossas cidades. Vamos ver em cada sofrimento deste o sofrimento do próprio Criador, do próprio Filho de Deus.

Vamos olhar para o sofrimento de Cristo e ver o sofrimento de cada pessoa e de toda a humanidade. Ver o sofrimento daqueles que são da nossa família, do nosso grupo social, da nossa igreja, da nossa cidade, estado e país, mas, também daquelas que não o são. Nossa vocação primeira é aliviar o sofrimento daquele que está mais próximo de nós, mas não podemos esquecer aqueles que estão distantes.

Vamos pedir forças a Senhor da Vida, para que possamos ser construtores dos sinais da vida. Vamos abolir do nosso meio todos os sinais de morte que trazem tanto sofrimento para tanta gente. Quando nós formos capazes de transformar, com a força de Cristo e a nossa força interior, o calvário daqueles e daquelas que estão ao nosso redor, nós estaremos vivendo e celebrando a Páscoa que Jesus sonhou para os seus seguidores, amigos e irmãos.

Que o Cristo Crucificado e Ressuscitado nos faça destruidores dos calvários humanos e construtores de castelos cheios de vida, na vida de toda a humanidade.

Fidélis Mangueira

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